cantinho gregoriano


Vontade de Romance XIII

The Traveller. [1915] - Liubov Popova

 

 

O vento que eletrizava o ar não havia levado os ares do inverno. Era agosto e ela se sentiu um pouco ridícula com aquele casaco de pêlo sintético. Era útil e apropriado para o frio e para sua condição econômica, mas o casaco levava consigo o cheiro familiar de seu armário, como se mesmo nas ruas do centro da cidade, ela, como um caramujo, levasse consigo a casa sobre as costas.

 

Diante da vitrine de uma loja ela limpou dos olhos os que restava do sono. Os números de plástico misturados ao seu reflexo causavam uma impressão fantástica e terrível. Ela nunca soube comprar roupas para homem. Lembrou-se, dentre outras incapacidades como esposa, de sua frustração em não promover belas combinações coerentes, ornando gravatas e camisas, pôr a mesa do café e beijar seu esposo como fazem as esposas na novela.

 

Diana, sua vizinha do apartamento de baixo, era uma dessas mulheres de novelas. Ou pelo menos assim ela a percebia e isso era tudo. Há duas semanas Diana havia tocado a campainha e oferecido o mais charmoso sorriso de ansiedade quando ela a abrira a porta. Queria mostrar o presente para o dia dos pais que havia comprado para seu marido. -"Não deu pra segurar! Gastei um pouco mais do que devia"- sempre sorrindo -"Mas olha que beleza?".

 

Ali, olhando a camisa estirada no sofá como se fosse um convidado, o protagonista da novela que sua vizinha euforicamente desenrolava, ela se assustou com a idéia de não ter pensado na celebração que estava por vir. Com a boca seca ela tentava sorrir e ajeitar os cabelos, como se sua imagem pudesse delatar sua incompetência matrimonial.

 

Diante de seu reflexo, misturado às cores fortes da publicidade e das formas masculinas dispostas na vitrine, ela se viu incapaz. Resolveu seguir adiante com vontade de otimismo e segurava firme a bolsa de tecido, olhando para seu sapato preto enquanto caminhava. O shopping se abriu com um vento quente. Sentiu náusea. Era a multidão sob a luz fosforescente ou o cheiro de batatas-fritas, mas ela deu de ombros e aceitou o martírio como uma santa. Do primeiro andar ao segundo e à escada rolante para o terceiro ela de repente não soube quanto tempo se passara e uma rápida ansiedade cruzou sua espinha. Precisava ser ali e naquele momento. O presente de dia dos pais.

 

Em toda vitrine, com maletas de couro marrom, imagens de uma vila italiana, meias de futebol ou filas de executivos estáticos ela apenas conseguia enxergar seu casaco desajeitado. O cabelo preto e liso que com o tempo pesava o rabo-de-cavalo formando duas ondas simétricas nos cantos do pescoço, os olhos fundos, a pintura seca e o maldito casaco. Tentou se lembrar de quando parou de se arrumar para ir ao centro enquanto, decidida, atravessava para o outro lado da vitrine.

 

Ela preparava o seu discurso para o vendedor e fingidamente distraída tocava as listas de uma camisa disposta em uma pilha em uma bancada. Saiu em um cômico desespero ao ver que uma atendente se aproximava. Cruzou com passos agitados a fila do cinema que tomava o corredor e o cheiro de pipoca fez aumentar a náusea. O banheiro naquela altura se tornou seu único refúgio e tudo pareceu sob toda aquela branquidão lisa ainda mais ridículo. "Esse casaco horroroso!" Disse em voz baixa se olhando no espelho.

 

Mesmo derrotada ela tentava raciocinar caminhando lentamente pelo colorido do shopping. Carteiras, meias, sapatos, chinelos, gravatas, camisas. Ela não ousava pensar em tentar surpreender, o óbvio já era suficientemente difícil. Em um misto de loucura e instinto de sobrevivência ela entrou em uma loja qualquer decidida a acabar ali com o sofrimento. 

 

-"Posso te ajudar?"

-"Pode. Quero presente pro dia dos pais."

-"Chegaram umas camisas lindas, cê quer dar uma olhadinha?" Qual o tamanho?"

-"Ele é mais grandinho assim." Improvisou ruborizada.

-"Essas aqui estão na promoção."

-"Vai essa mesmo." Apontou para uma camisa branca de punhos azuis. Ela realizava as ações sem compreender bem o que fazia mas nada importava. Era o calor improvável da loja e sua agitação, as cores em excesso, a música em uma pulsação cardíaca, as pessoas próximas mas fechadas em suas decisões particulares e ela se perdia em detalhes inúteis como o rachado no chão próximo ao balcão, a maçaneta da porta de vidro, de um design estranhamente futurista, a maquiagem que se aglomerava nas pontas dos cílios da vendedora e o cheiro de seu casaco que engolia sua presença.

 

-"E pra você?"

 

Na volta ela conseguiu se sentar ao lado da janela. Segurava as mãos entre os joelhos que, por sua vez, seguravam uma sacola branca. Ali dentro, uma fita azul escondia a camisa e seu casaco de pêlos falsos, que de onde ela olhava, parecia um animal de pelúcia se mexendo no chão oscilante do ônibus. O sinal abriu e ela abriu a janela. Não se importava com o frio, pelo contrário, sentia o vento em seu rosto como uma recompensa pelo calor das provações pelas quais passara. Como um remédio, ou sacrifício, o vento era a primeira prova de que seu novo casaco marrom, que a vestia com perfeição segundo a vendedora, não era apenas belo mas também útil.

 



Escrito por greg às 02h32
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vontade de romance XII

 

Rybakow Valery - Minsk, 225174 - Belarus

 

Era como haver o coração congelado.

Um bloco de neve caiu de uma velha calha, concidentemente no mesmo momento em que ele disse: "ficarás bem?"

Ela piscou forte, sem naturalidade, como se umidificar os olhos, respirar e fazer o coração bater fossem atos voluntário, controlados pelos músculos do seu corpo que, naquele momento pareciam não responder à natureza.

Ele se virou, percebendo que o bloco de neve havia caído e voltou o olhar para ela, com um leve sorriso.

Ele se divertia com o fato de que ela se espantara com o ruído sem saber o que ela realmente pensava ou sentia.

Não era o adeus. Ja havia recebido e oferecido adeus suficientes para três vidas. Não era o fato de que ele não se interessava mais pelos seus cabelos ruivos, não se divertia com sua risada aguda e descontrolada. Não era o fato de que ele havia encontrado uma nova aventura.

"Porque eu não ficaria bem?"

"Bom... é isso mesmo!- ele sorria alto e olhava a sua volta para confirmar se alguém compartilhava do seu divertimento ao percebê-la tão falsamente cheia de si.- Boa garota! É lógico que você vai ficar bem."

"Então porque a pergunta?"

Ele, ainda enrubrecido pelas gargalhadas, a olhou nos olhos e percebeu seu engano. Seu sorriso se desmanchou em dúvidas.

"Porque eu não ficaria bem? Eu estou bem agora? Eu estava bem ontem? Estava eu contente na última terça-feira?"

E ele se deu conta de que nunca havia antes pensado na sua felicidade. E ela continuou:

"Você vai ficar bem? Você está bem?"

"Basta!"

Ele respondeu enérgico.

E foi assim que veio à sua mente todos os sorrisos, as carícias, os beijos e o sol da manhã entre os cabelos ruivos. Um tipo de lembrança desviculada da realidade, como se não houvesse vivido ele mesmo aquelas imagens e sensações, como se houvesse lido um livro, um romance, onde um belo rapaz conhece uma bela moça e vive um belo romance mas nunca vem conhecer a identidade secreta da sensual espiã russa.

"Ao menos me conheces?"

"espiã russa..." Ele balbuciou sem se dar conta.

E ela caiu em uma aguda e ensurdecedora gargalhada fazendo mais e mais blocos de neve cairem da velha calha, sobre o passeio umido e cinza daquela noite de maio.



Escrito por greg às 20h32
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fechando cilcos - iniciando círculos

Um dia ele se deu conta do caminho que havia tomado. Antes de abrir os olhos, tentou se lembrar de muitas coisas. Percebeu que havia esquecido as melhores. Tomou coragem e resolveu agir:

-Não. Não chora. Vamos ficar todos juntos.

Disse ainda abrindo os olhos e tentando se levantar. Ficou paralisado diante da cena que o esperava, silenciosa e suspensa no ar. Estavam ali todos os seus fantasmas, as seus medos, as suas mentiras e seu orgulho, suas alegrias, seus prazeres e suas lembranças. Todos em pé em volta da cama.

Um dos fantasmas, com um terno de linho cinza e a cara torta retirava a poeira do chapéu e ria, ria muito. O ódio despertado se levantou "calma, calma, também estou eu aqui", o susto, "presente!" e tudo o que sentia se materializava dentro do quarto frio. Não havia névoas, transparências, luzes ofuscantes ou qualquer outro artifício que o fizesse pensar que fosse um sonho. Aceitou o fato e a complascência se aproximou:

-Ouça, não se pode fazer nada. O único que não está aqui presente hoje é o tempo. Que se recusa a se encontrar com o perdão. (Que vestia uma longa túnica preta e olhava, triste, pela janela). Não se falam há anos. Deixa estar, deixa ser, que o que está feito está e estará sempre feito.

A confusão chegou atrasada, derrubou um vidro de remédios sobre a mesa atrás da porta, olhou com deboche para a razão, comprimentou algumas lebranças e desejos e gritou lá do fundo:

-Ou! E aí? Já tá na hora?

E entao, o silencio passou, sereno, alto, magro, branco e narigudo e fez um gesto. Todos se ajoelharam. Algumas lembranças choravam, um desejo, especialmente belo, cheio de vermelhos e brilhos desmaiou. Uma mentira foi acudir. As alegrias entao se arrastaram ate a cama, carregando caixas e caixas de papeis, retratos e presentes ainda embrulhados. Os medos, que eram muitos, tambem se aproximaram. Tinham um jeito um pouco militar, gestos programados e, como em coro, fizeram um tipo estranho de continência e se retiraram.

Um por um, foram todos se levantando e deixando o quarto, em silencio, cabisbaixos, como uma oração, uma despedida solene.

Restaram no fim duas lembranças magras e fracas, que quase não coseguiram se levantar para deixarem o quarto. Duas desejos que se recusavam a sair e choravam tanto que foi preciso da ajuda da paciência para sairem e uma criança, muito timida, com um rosto traquilo, que restou, até o ultimo momento, ao seu lado, segurando sua mão.

-Não se preocupe. Vamos ficar todos juntos.

Disse com esforço, antes de partir.

Então a fé-menina recolheu algumas coisas esquecidas pelas lembranças mais agitadas, felizes ou perturbadas e saiu.

Menina que era, deixou cair pela rua alguns objetos esquecidos, enquanto se distraia entre casas, pontes e praças onde algumas crianças, como ela, brincavam carnaval.

Escrito por greg às 21h50
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vontade de romance XI

Ela estava ansiosa por vê-lo novamente. Ao olhar-se no espelho, pensou no jeito que ele gostava que prendesse o cabelo e não conseguiu recordar-se bem. Olhou aquele broche de pedras verdes que ele detestava e guardou-o. Perfumou-se, abaixou um pouco o decote, escondeu as fotos e cartas dos amantes que recebeu durante o ano que passara longe dele. Relembrou sua voz, tentou recordar o jeito que ele a olhava e como retribuía seus galanteios.

Percebera ai, que muito tempo havia se passado. Não exatamente esse tempo que o relógio conta, mas um tempo interno. Sentiu um hiato nas batidas do seu coração mofado. Olhou-se no espelho novamente. Quando se amavam e viviam juntos não haviam aquelas rugas, a cicatriz em sua mão, a cor queimada dos cabelos, ainda não usava tanta maquiagem, não sabia cruzar as pernas e nem havia sombra alguma do olhar triste e pesado que agora carregava.

Soltou o cabelo, recolocou o broche na lapela e foi encontrá-lo pela última vez.


Escrito por greg às 13h11
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fábula amarga XIV

A serpente

Ela era uma serpente muito solitária, que andava sobre a areia quente em ziguezagues lentos. Ela tinha na testa a ruga típica de quem se preocupa com tudo, que acentuavam seus olhos verdes de serpente.

Um dia, a serpente foi surpreendida por uma chuva. No deserto em que vivia, não chovia há anos e ela não conhecia a chuva.

Quando ela era apenas um fiozinho ouviu seu avô dizendo que a chuva era o céu desabando no deserto.

A serpente não fez nada. Não se protegeu, não correu, não gritou por socorro. Ela ficou parada, sentindo as gotas de chuva em seu dorso duro e áspero.

Quando a chuva acabou ela pensou decepcionada: "Achei que o céu não tivesse fim"



Escrito por greg às 12h25
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vontade de romace X

The Nurse by Sir Laurence Alma Tadema OM RA, 1836-1912. 1872. Oil on panel

 

Era uma longa despedida. Por meses ela ensaiava um adeus que era impossível de dizer sem que seu coração se sentisse abandonando um paraíso.

 

Estava certa de que não olharia para outro homem quando ele apareceu no abrigo, coberto de sangue e suor. Cuidar de suas feridas não apenas fazia parte de suas obrigações como enfermeira, mas era o seu amor louco, repentino e inexplicável que a fazia acordar já com as mãos envoltas em gaze e álcool e os pensamentos naquele homem desconhecido.

 

Ele acordou, ela viu seus olhos castanhos, e eram exatamente como imaginara.

 

Por dois meses eles se amaram e agora ela teria que partir. Uma batalha no norte exigia a presença de todo corpo de medicina da pequena frente montada naquela montanha, e ele já havia se curado. Era apenas um pastor de ovelhas atingido por engano e não poderia partir com ela.

 

Naquele dia ela decidiu se despedir sem lágrimas e desesperos. Queria parecer adulta e segura, mas quando viu seus olhos castanhos tristes e suas cicatrizes recém formadas decidiu levá-lo para casa ao invés de abandoná-lo.

 

Seguiu por alguns quilômetros com ele até a pequena casa na base da montanha escura. Estava abrindo as janelas e limpando a poeira que havia se acumulado nas cortininhas de renda quando se deu conta de que era ela quem havia encontrado um lar.



Escrito por greg às 14h56
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fábula amarga XIII

em resposta a um pássaro verde misterioso e ansioso

 

 

O limão azedo

 

 

 

Desde pequenininho o limão era meio angustiado. Tinha uma agitação e uma curiosidade excessiva pelas coisas que estavam por vir. Queria saber sempre do que aconteceria às plantas, aos pássaros, ao rio e a tudo mais quando o tempo passasse, e isso o deixava um pouco triste.

 

Cresceu um pouco e com ele cresceu também a sua angústia e sua inquietação. Era um limão chato, preocupado e curioso demais.

 

Um dia, aconteceu uma grande festa no limoeiro ao lado. Todos os limões estavam comemorando a troca de cor. Despontavam em hemisférios de seus corpos manchas amareladas e isso era motivo de alegria para os vizinhos.

 

- Porque a festa? Porque tanta alegria? O que está acontecendo com o corpo deles?- Perguntava o limão azedo sem dar pausa para a resposta, que veio devagar, mas impaciente, de um limão que vivia no galho da frente.

 

- Eles estão amadurecendo. Quando nós limões amadurecemos ficamos amarelos... este é o sinal.

 

E para o espanto de todos, o limão azedo não respondeu com outra pergunta. Ele não pronunciou um gemido, nem uma palavra avarenta, nem um lamento, nada... e foi assim por muito tempo.

 

O caso era que ele esperava ansiosamente pelo seu amadurecimento. Para ele, amadurecer era saber as respostas. Se afogou em pensamentos, olhou para si mesmo e não quis mais falar. Esperava todos os dias por encontrar uma mancha amarela na sua casca.

 

Aos poucos, seus irmãos de limoeiro foram ficando amarelados. Foi um mês de comemorações constantes, mas o limão azedo não encontrava uma pinta sequer.

 

Foi ficando muito nervoso e a sua angústia passou a consumi-lo. Ele não dormia, não falava, não pensava em outra coisa e tinha muita inveja de quem já estava amadurecido. Às vezes o galho o cobria com uma folha amarelada de outono, para que ele se sentisse melhor, mas não adiantava. Coisa de mãe.

 

Um dia resolveu desistir, e chorou. Do topo de sua cabeça saiu uma seiva azulada, tão vasta e bonita que o limão chorou ainda mais de emoção. Na manhã seguinte já estava amarelo.

 

Mas o limãozinho azedo passou muito tempo pensando no momento belo de se desfazer em seiva azul que só percebeu seu amadurecimento duas semanas depois.



Escrito por greg às 15h18
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fábula amarga XII

A arraia

 

Era uma vez uma arraia que deslizava destro d’água com uma agilidade incrível! Estava sempre em busca de coisas para preencher os seus dias mas não havia nada que a fizesse parar, pensar ou sentir diferente. Tinha um jeito constante e único de fazer as coisas. Sempre indo e vindo, em razantes diagonais, como uma sombra no fundo do mar.

 

Às vezes ela se sentia cansada e pensava:

 

“Eu faço tanto! E nenhuma recompensa! Estou sempre tão sozinha!”

 

Mas as perguntas desapareciam assim que a necessidade de se lançar em movimento vinha.

E ela passou anos indo e vindo.

 

Um dia ela percebeu, um pouco acima de sua cabeça, uma outra arraia. Pequena como ela, mas lenta, muito lenta, que nadava expandindo e contraindo as nadadeiras em aspirais longos e precisos.

 

No seu dorso, muitos peixinhos a acompanhavam bem de perto. Grudados, movendo as caudas, refletindo luz prateada.

 

“Parasitas!”

 

Pensou agitando seu ferrão.



Escrito por greg às 13h33
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saudade 2




Anne Marie Galtier - Natureza Morta

"A morte talvez não tenha mais segredos a nos revelar que a vida."
(Gustave Flaubert)




Para mim o carnaval sempre foi um feriado qualquer. Eu não tenho todo esse gingado na veia.

Neste ano fui ao sítio de um amigo que perdera o pai há pouco. Mas isso não havia afetado tanto o humor carnavalesco de todos os meus amigos que estavam lá. A bebida diluia um pouco a realidade. E com tanta bebida e mistura, eu tinha a impressão constante de sujeira nos dentes. Me incomodavam e eu os escovava o tempo todo.

Pois bem, a morte recente do pai deste meu amigo não havia afetado o clima de festa até que recebemos a visita de sua mãe, no caso, a viúva, que vestia no rosto e nos gestos um luto muito doí­do.

E eu, enquanto só pensava em escovar os dentes, fui requisitado para falar-lhe das coisas que eu pensava a respeito da morte. O caso é que na noite anterior haví­amos conversado um pouco sobre a morte e as minhas opiniões causaram uma certa curiosidade a té um pouco de espanto.


E entre a desconstruçã de teorias espí­ritas e católicas e uma longa explicação sobre uma visão mais realista e clara sobre o nosso fim (que na minha opinião é só um fim, tipo: "pronto, acabou!" sem luzes e anjos e coisa e tal) a mulher me pergunta:

- E quem fica? Faz o quê?

Me desarmei, não havia respostas rápidas e claras, mas meu embaraço foi salvo pela chegada inesperada de uma senhora muito simples, como uma cozinheira, ou faxineira. Uma trabalhadora da casa chegou com um chinelinho velho e um lenço no cabelo. Alguém disse:

- Olha a Dona Maria! (vou chamá-la assim).

E a viúva, muito comovida com a presença amiga abraçou-a chorando. Chorando muito.

Dona Maria então soltou uma longa e deliciosa gargalhada.

-E a senhora ainda ri, Dona Maria?

-"Ma¡ vai fazê o quê, minha fia? Buscá ele num tem jeito."

E assim, com uma gargalhada e meia dúzia de palavras, Dona Maria disse tudo o que eu tentava explicar com teorias inventadas e atravessadas.

Disse isso e muito mais. Com um largo sorriso, sem nenhum dente na boca.



Escrito por greg às 11h03
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fábula amarga XI

"Para quem ainda enxerga"

 

O Pássaro Verde

 

Envergonhado, o passarinho verde resolveu que era hora de sair de casa pois já estava cansado de esperar que sua cor mudasse.

 

No inverno, após algumas semanas fechado em seu buraco no alto de uma pedra, ele saiu para se lavar e, atônito, se deu conta de que estava verde. Sem entender bem ele voltou aliviado porque ninguém o vira, mas com o coraçãozinho paltpitante, sem saber por que ou como isso foi acontecer.

 

Passou muito tempo recluso e agora já havia perdido as esperanças. Encheu-se de tristeza conformada e resolveu sentir o ar da segunda primavera. Pensou então que talvez fosse assim. Que se visse os outros passarinhos talvez eles também estivessem verdes e essa mudança seria apenas mais um impulso misterioso da natureza. O mesmo que o fizera cantar pela primeira vez, ou comer as sementes de uma maçã.

 

Infelizmente não foi isso o que aconteceu. Ele encontrou todos mudados, porém não havia nenhum pássaro verde. Seus amigos e familiares eram, na sua maioria, de tons amarelados, ou vermelhos no peito e alaranjados nas asas. Verde, nenhum era.

 

Ele não conseguiu esconder seu desapontamento e gritou, com sua voz forte e aguda:

 

“Onde estão os pássaros verdes?”

 

Nesse momento, do meio da floresta densa, voou assustada uma grande nuvem de pássaros azuis que diziam em coro:

 

“Não há! Não há! Não há!”



Escrito por greg às 19h40
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vontade de romace IX

Café Dome - Yumi / 2005

 

Eles e encontraram pela primeira vez em uma festa de casamento de amigos em comum. Nunca souberam explicar o encanto daquela noite. Eram as velas, as flores, a música, o clima da celebração ao amor, um pouco de tudo e os olhos brilhantes que ela tinha e o jeito estranho que ele dançava. Houve apenas um abraço e um olhar de confidência. Sem saber, diziam: “vamos seguir juntos”.

 

Ela estava se separando do marido, ele estava de partida para a Europa.

 

Viveram apaixonados à distância por vários anos. Não se correspondiam simplesmente porque não havia o que dizer. E a vida passou lenta e turbulenta, levando o calor para um lugar apertado dentro das ocupações de todo dia. Sem saberem, era um casal perfeito, pois faziam as mesmas coisas em uma coincidência silenciosa. Estavam, ao mesmo tempo, longe um do outro, no cinema, numa consulta ao médico, ouvindo a mesma música, se sentindo bem ou mal, pensando um no outro, bebendo e falando as mesmas coisas.

 

Ela se sentiu sozinha, ele quis se casar. Procuraram-se juntos sem saber e se encontraram na convergência dessa busca.

 

Ainda não havia o que dizer. Estavam cansados, sentiam-se velhos. Choraram juntos, agora próximos, a falta do que não viveram e o fim de um romance eterno.

 

Ela chegou em casa e sorriu a estupidez da ilusão, ele se matou.



Escrito por greg às 01h27
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fábula amarga X

 

A garça bonita

 

Era uma garça muito bonita e branca.

 

Diferente das outras garças, ela se mantinha distante e estática apoiada em uma pata, esbelta e empinada.

 

Não havia nada de arrogante na garça. Ao contrário da opinião de todos, ela era gentil e amável, mas se acostumara a ser tratada com distância e uma cerimônia que sua aparência estimulava, mas que não a deixava completamente feliz.

 

Era tensa e tinha medo dos olhares agudos das outras aves. Um dia resolveu que tudo iria mudar.

 

Casou-se com a garça mais feia do lago e foi tomada por todos como um ser superior, uma alma boa e pôde exercitar um pouco de sua convivência. Podia, enfim, ser gentil e amável como era.

 

Não era um casamento feliz porque casou-se por causa da aparência da garça feia e esta, coitada, não podia deixar de se sentir metade lisongeada, metade inferior e isso causava nas duas uma confusão danada. Viveram em silêncio por muito tempo.

 

Um dia a bela garça voou. Assim sem aviso.

 

A garça feia chorou um pouco, mas logo surgiram vários pedidos de casamento. E ela teve vários filhotes feios como ela.

 

Sabe-se apenas que a garça fugitiva vive hoje em uma montanha muito alta no norte. Mas é muito difícil encontrá-la, porque vive a maior parte do tempo parada, como uma estátua de mármore, camuflada pela neve.



Escrito por greg às 12h52
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vontade de romance VIII

Toulouse-Lautrec - (Woman with Gloves), 1891

Musée d'Orsay, Paris

 

Ela estava ansiosa e tocava os babados da luva num gesto cuidadoso e sem sentido, como se analisasse ou ajeitasse ou apenas sentisse a textura da renda.

 

Havia preparado um discurso cheio de rancores e maldições. Havia pensado muito e vivido muito tempo com seu sentimento de abandono, que se transformara em um mosaico de idéias obsessivas. Queria encontrá-lo e dizer o quanto havia sofrido, queria mostrar-lhe o mal que fizera.

 

Agora, enquanto o aguardava, tudo parecia hesitar.

 

Não queria ser frágil, não queria mostrar-lhe um rosto cansado e derrotado. Já não pensava mais em atravessar-lhe o coração com palavras de desprezo. Sentiu um profundo afeto pelas lembranças que outrora lhe atormentavam.

 

Entendeu, entre as flores de renda de sua luva, que deveria abandonar o encontro.

 

Alguns anos depois folheava um livro displicentemente quando leu que o autor era ele. Leu o nome proibido impresso em vermelho na capa de couro branco. E o encontro se deu, enfim, já na terceira página.

 

“para minha flor eterna”



Escrito por greg às 17h34
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vontade de romance VII

 

Ela acordou aterrorizada pelo sonho que teve. O medo maior era de que fosse um presságio, uma triste premonição de um destino cruel e deveras repugnante. Uma casa aos pedaços, os jardins repletos de flores secas e a solidão fria de um cenário campestre devastado.

 

Ela adorava o campo. Passara o último verão em uma estância aconchegante nas montanhas. Eram as lembranças mais felizes que guardava. Dias tranqüilos e claros junto a quem nutria seus mais profundos afetos. Seu amor eterno.

 

Ofegante e trêmula, ela vagou pela casa durante alguns minutos realizando tarefas inúteis para tentar se acalmar. Bebeu um copo d’água, penteou-se, organizou alguns volumes que ainda restavam em cima da mesa e olhou pela janela. Era verão novamente.

 

Não podia suportar ter uma outra visão do campo. Ver transformadas as imagens mais belas que guardava, em um pesadelo cheio de desgosto. Maldisse seu terrível sonho em voz baixa e decidiu ir sozinha ao campo.

 

Não se importava mais com sua falta de vontade, não pensava mais na dor, esqueceu-se que não queria deitados nela os olhares piedosos da vizinhança.

 

Saiu decidida a recuperar a dignidade da esperança. Saiu, como um soldado, para lutar contra um coração decidido a se secar.



Escrito por greg às 10h23
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fábula amarga IX

 

para o tempo passar

 

 

o relógio e a pulseira

 

Era um relógio que já há muito tempo vinha marcando incansavelmente as horas. E tudo o que ele pensava e fazia girava em torno da sua função de medir o tempo.

 

-Um segundo!... Dois minutos!... Cinco Horas, hora disso!... Está na hora!... Hora daquilo!

 

Sutilmente todos evitavam a sua presença porque se tornou cansativo, mas durante uma refeição e outra ele encontrou uma linda pulseira que se encantou por sua precisão. O relógio decidiu que era hora de se apaixonar.

 

Eles andavam sempre juntos e ela o achava muito esperto e sabido, porque estava sempre dizendo as coisas com muita convicção e firmeza. E porque ele sabia do tempo. Ela tinha muito medo do tempo.

 

Quando percebeu as primeiras manchas esverdeadas de ferrugem, ele decidiu que era hora de partir.

 

Ela chorou e fez corroer ainda mais seus bracinhos, que ficaram fininhos e tortos.

 

Ele nem a reconheceu quando a encontrou e o metal escuro e muito fino, estava cheio de diamantes em sua volta, antes escondidos.

 

Eternos.



Escrito por greg às 16h19
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brincadeira de mau gosto

 

O filho do diabo também emburra.

 

"ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar,

vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar.

O anel que tu me destes era vidro e se quebrou,

o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou."

 

Vai e volta e roda e vira e ri e chora e canta e emudece e abraça depois corre e beija e empurra e diz e desdiz e se é sincero e faz-de-conta. 

Brincar cansa. Brincar muito enjôa.

Tô de altas!

Parei de brincar! De novo.



Escrito por greg às 12h29
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vontade de romace VI

Ben Marshall - Mary Musters On a Grey Horse Riding Sidesaddle 1824

 

 

Quando ainda era menina, ganhou um pônei branco. Não era uma surpresa. Sabia o que queria e sempre encontrava ocasião para dizê-lo. Enfim, no dia de Natal, abriu um sorriso enquanto passeava em seu novo presente e pensou como era bom ter sempre o controle das coisas.

 

Era uma moça muito bonita e elegante com um dote que incluía terras que dobravam o horizonte e muitas outras riquezas. Não foi difícil encontrar pretendentes, porém, quase impossível fazê-la se casar. Casou-se em uma quarta-feira de sol. Muito feliz.

 

Após uma despedida emocionada na velha fazenda de seus pais ela tomava as rédeas de sua vida, carregando, como se o fizesse nas costas, os seus bens e de seu marido, a quem amava muito, para uma estância muito elegante em terras do norte.

 

Impecavelmente vestida de azul, organizava o carregamento dos móveis, porcelanas, cortinas, roupas e tapetes, com um sorriso trancado pela força que o controle lhe dava.

 

Encontrou por fim uma mala antiga nas coisas dele. Queria logo se desfazer dela, mas havia dentro algo valioso. Cartas, fotografias e pequenos souvenires de amores passados. Tantos nomes, sorrisos, juras, promessas e coisas das quais ela não participara, que sentiu-se tonta. Não importasse quanto tempo ela ainda teria com ele, nunca apagaria o que aquelas senhoras haviam vivido com seu esposo. E ele com elas.

 

Não havia nada a fazer, senão aceitar que um homem não é um pônei.

 

Contentou-se então em guardar a mala em algum canto escondido e sacudir a poeira do seu vestido azul para esperá-lo chegar. E ela o esperava com um sorriso médio, mas sincero, amadurecido.



Escrito por greg às 14h20
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fábula amarga VIII

para um raio de sol

 

a lagosta irritada

 

Era uma vez uma lagosta muito irritada!

 

Ela implicava com tudo. Com os moluscos que grudavam nela e a incomodavam, com os peixes que nadavam muito perto, com as algas que se entrelaçavam nas suas várias perninhas e a faziam escorregar, com as enguias que nadavam muito rápido, com as baleias que nadavam muito devagar, com as ostras, as pedras, a areia, os caranguejos e as outras lagostas.

 

Um dia, a lagosta rabujenta encontrou uma água-viva. Nunca havia visto algo tão bonito.

 

“Deve ser chata. Parece metida e mal criada!” Pensou a lagosta enquanto a água-viva passava silenciosa sobre sua cabeça. Translúcida e gentil.

 

Naquela noite, a lagosta sonhou com um bando de águas-vivas, brincando entre um mar de corais esverdeados. Tão lindas, alegres e ágeis, que não havia nada no mundo melhor pra se olhar.

 

No dia seguinte a lagosta acordou pronta para xingar um raio de sol, que se atrevia a atravessar a superfície do mar e entrar na sua caverna, quando pensou nas águas-vivas.

 

“Talvez sejam tão especiais porque se deixam ser atravessadas pelos raios de sol".



Escrito por greg às 16h30
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jeans e camiseta

jeans - 7/7/2005

camiseta - domingo, 12 de junho de 2005

 

Notava, enquanto acostumava-se com o hábito de não dormir, que a cada noite passada em claro mais as coisas do mundo se esclareciam. Ela tentou não se deixar abater, mas foi impossível. Ao não dormir, a energia não se perdia com o fechar dos olhos e o repousar do corpo.

Todo os sonhos que havia alinhavado em tecidos de puro amor foram desfeitos, a cada palavra arremessada naquele pedaço de papel ingrato. Ele falava de paixão a outra pessoa. Palavra que nunca estivera presente em seu vocabulário carinhoso com a jovem Margarida, nem na boca nem nos olhos. Sempre demonstrações cotidianas e comedidas de afeto. Afeto. As vontades permaneciam insatisfeitas, em busca de realização. Margarida às vezes não queria afeto. Queria seu vestido rasgado, o rosto enrubrecido e a brutalidade do desejo repentino, próprio dos amantes. Queria ter o que aquela a quem a carta se destinava tinha.

Os aprendizados, assim como as boas experiências, deixavam de dispersar-se, de encaminhar-se para o desconhecido território da memória. Uma lágrima desceu dos olhos de Margarida e manchou uma palavra.

O presente acentuava-se, as idéias encadeavam-se e, ao mesmo tempo, tornavam-se singulares pela abolição da rotina. Os fatos deixavam de aprisionar-se em dias, passavam a dar-se em seu tempo devido, em seu espaço adequado.

Esforçando-se, ela leu que sua lágrima tinha transformado amor em dor.

porque independem da ocasião, não precisam fazer sentido, são extremamente diferentes, mas combinam.



Escrito por greg às 18h51
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fábula amarga VII

 

 

Para justificar encontrar tesouros e não enterrá-los. Para justificar ser imprudente. Para justificar viver um amor. Para não precisar mais
 
 
 
A chaleira na cristaleira
 
Era pequena e estranha a velha chaleira de louça encostada no fundo da cristaleira. Tinha o corpo arredondado que afunilava até a boca, como um pescoço comprido. Tinha asas com relevos e babados cor-de-rosa, extremamente conservadas.
 
Tinha um ar sombrio e melancólico. Não conversava, apenas suspirava. Ela mantinha distância das outras louças e dos copos e pratarias porque era diferente. Nunca havia quebrado um lasca, nem sido trocada ou mexida. Estava intacta e caduca.
 
Já havia se esquecido de muita coisa. Não lembrava, por exemplo, de quando entrou naquela casa, em uma caixa verde com um laço de tecido verde mais escuro. Não lembrava da festa de aniversário, da conversa de mãe e filho na madrugada sobre sua tampa, da criança querendo alcançá-la, das refeições românticas.
 
Todas as louças foram sumindo, uma a uma, de dentro da cristaleira. A chaleira não sabia mais o que pensar. Tantos anos ali, no fundo, guardada. Sentia, às vezes, um pouco de medo, um pouco de tristeza, inquietude... e tinha sempre muitas dúvidas.
 
Um dia, ela acordou sendo mexida. E, com muita surpresa, percebeu que era a única coisa que ainda havia dentro da cristaleira.
 
“Não! Essa não! Era a sua preferida!”
 
E assim, a chaleira voltou para dentro da cristaleira. Mas sua memória fraca surpreendeu-lhe ali, com uma lembrança: O dia em que foi guardada, para ser poupada.


Escrito por greg às 17h13
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